O Futuro da Previdência Complementar no Brasil
Uma leitura dos debates do 47º Congresso da ABRAPP sobre os caminhos dos fundos de pensão nos próximos anos.
A previdência complementar brasileira precisa ampliar o acesso e transformar a poupança acumulada em renda adequada para uma vida mais longa.
Essa é a principal reflexão que extraio da agenda do 47º Congresso Brasileiro de Previdência Privada, realizado em Out/2026 sob o tema Previdência em Movimento. Os debates sobre inclusão, comportamento, investimentos e tecnologia apontam para um setor que precisa adaptar sua atuação às condições concretas de quem poupa.
Inclusão exige flexibilidade e confiança
A pesquisa do IBRC apresentada no congresso identificou interesse por proteção previdenciária entre trabalhadores informais e plataformizados. Também mostrou demanda por informação. Esses indicadores representam disposição declarada, não adesão contratada.1
Na minha avaliação, alcançar esse público exige contribuições compatíveis com renda variável, custos proporcionais ao volume poupado e uma jornada simples. A sustentabilidade administrativa precisa ser demonstrada desde o desenho do produto. Pequenos aportes ampliam o acesso, mas precisam ter continuidade e escala para sustentar o serviço.
A decisão de aderir começa no presente
O congresso também trouxe a simplificação da escolha como caminho para ampliar a adesão. A pessoa precisa compreender quanto contribui, quais custos assume, como o saldo se forma e que renda poderá construir. A inscrição facilitada pode reduzir obstáculos, mas a permanência depende da experiência ao longo do tempo.3
Em relato apresentado pelo iFood, o interesse dos colaboradores chegou a 90% em uma pesquisa interna que considerava contrapartida da empresa. Trata-se de intenção declarada em uma organização, não de adesão efetiva do mercado.4 O dado reforça minha percepção de que o patrocinador influencia o valor percebido do benefício e deve participar da educação e do relacionamento previdenciário.
Investir exige olhar para o compromisso
A Pesquisa Raio X de Investimentos apresentada no evento mostrou maior concentração em renda fixa ao longo de uma série de 13 anos. O levantamento reuniu entidades com R$ 461 bilhões em ativos, equivalentes a 34% do sistema na posição informada de Dez/2025. Seu recorte deve acompanhar a leitura dos resultados.2
Minha leitura é que a discussão precisa partir dos benefícios a pagar, da liquidez e do horizonte de cada grupo. Títulos vinculados à inflação podem contribuir para proteger compromissos reais. Ainda assim, concentração, reinvestimento e mudanças de cenário precisam ser testados.
O ALM, que integra a gestão de ativos e passivos, deve sustentar decisões recorrentes. Nos planos BD, importa a capacidade de cumprir o benefício prometido; nos CD, a renda que o saldo poderá financiar. Uma mesma carteira não atende necessariamente participantes em diferentes etapas da vida.
A longevidade muda a pergunta sobre o resultado
Os debates sobre envelhecimento e governança atuarial reforçam uma mudança que considero essencial: avaliar o plano pela proteção que entrega ao longo da aposentadoria.6 O patrimônio é necessário, mas seu tamanho, isoladamente, não informa se a renda será suficiente nem por quanto tempo poderá ser mantida.
Uma conta simples mostra a importância do horizonte de pagamento. Um capital de R$ 1 milhão, dividido em retiradas mensais uniformes, gera valores diferentes quando distribuído por 20 ou 30 anos.
A extensão do prazo de 20 para 30 anos reduz a retirada mensal em 33,33% nesse exemplo. Na prática, rentabilidade, contribuições, despesas e modalidade de recebimento alteram o resultado. A decisão exige hipóteses explícitas e análise de sensibilidade.
Para as EFPC, isso significa acompanhar o risco de longevidade e a suficiência da renda, respeitando a modalidade de cada plano. Em um BD, alterações biométricas podem afetar compromissos atuariais. Em um CD, maior sobrevivência pode pressionar a renda disponível quando o saldo individual precisa financiar um período maior.
Defendo que a comunicação apresente cenários compreensíveis de renda, com seus limites. O participante deve poder entender o efeito de contribuir mais, adiar a aposentadoria ou escolher outra forma de recebimento, sem confundir uma estimativa com uma garantia.
Uma agenda que conecte crescimento e proteção
Ampliar o número de participantes é importante. A avaliação também deve considerar a regularidade das contribuições, a permanência, o custo por participante e a renda projetada. São indicadores que ajudam a verificar se a expansão está produzindo proteção previdenciária sustentável.
Tecnologia com responsabilidade sobre o resultado
A inteligência artificial esteve na agenda do congresso associada à estratégia, à qualidade dos dados e à governança.5 Vejo espaço para melhorar o atendimento, identificar inconsistências e tornar simulações mais acessíveis. A escolha da ferramenta deve partir de um problema definido e de um resultado verificável.
No trabalho atuarial, isso exige rastreabilidade das bases, validação dos modelos e revisão das hipóteses. Automatizar uma etapa não elimina a responsabilidade técnica pela conclusão. Quando a informação influencia a decisão de aposentadoria, o participante precisa saber quais condições sustentam a estimativa apresentada.
O que os fundos de pensão podem fazer agora
Minha proposta é transformar os temas discutidos em uma agenda de gestão: conhecer melhor a renda e as necessidades do público; rever custos e barreiras à adesão; testar a compatibilidade dos investimentos com os compromissos; e apresentar cenários de renda que ajudem decisões concretas.
Essa agenda precisa chegar aos conselhos com responsáveis, prazos e indicadores. Projetos de expansão, inovação e revisão de produtos devem explicitar quem será atendido, qual problema será resolvido e como a entidade acompanhará seus resultados.
O futuro da previdência complementar será construído pela capacidade de incluir pessoas, preservar a confiança e entregar renda ao longo da aposentadoria.
É nessa ligação entre técnica, gestão e realidade do participante que a Atuariale concentra sua contribuição. A discussão iniciada no congresso ganha valor quando orienta decisões sustentáveis dentro de cada entidade.
Cesar Luiz Danieli
Atuário · Fundador da Atuariale
Técnica que entende o seu contexto.
Fontes dos debates e dos dados
ABRAPP em Foco · Cobertura do 47º CBPP · Out/2026. Os comentários e encaminhamentos propostos expressam a opinião do autor; não representam deliberações do congresso.
- Inclusão previdenciária dos informais e plataformizados · Out/2026.
- Pesquisa Raio X de Investimentos das EFPC · Out/2026.
- Simplificação da decisão e adesão à previdência · Out/2026.
- Contrapartida da empresa e interesse dos colaboradores · Out/2026.
- Inteligência artificial e estratégia nas organizações · Out/2026.
- Governança atuarial longevidade e gestão de riscos · Out/2026.